24 de outubro de 2013

A escolha do porta-bebé

Sou frequentemente abordada por pais ou futuros pais com questões sobre a escolha do porta-bebés ideal. A maioria gosta da ideia do sling e opta por essa solução, mas existem ainda muitas pessoas cépticas ou desorientadas em relação à melhor escolha para os seus bebés. 

Há alguns factores a ter em conta na escolha do porta-bebés, e se alguns dizem apenas respeito ao estilo e gosto de cada um, outros prendem-se com a segurança e o conforto do bebé e de quem o vai carregar. 

Antes de mais, é importante que o porta-bebés respeite a anatomia do bebé e de quem o usa e permita que o bebé seja transportado numa posição fisiológica. E o que é uma posição fisiológica? Imaginem-se numa cama de baloiço, presos pelas entrepernas e com as pernas penduradas. Se calhar durante uns momentos aguentavam, mas agora pensem que estariam nesta posição, a serem balançados, durante uma hora... duas horas... ao fim de algum tempo o desconforto seria difícil de aguentar. Assim são transportados os bebés na maioria dos marsúpios, apoiados nos genitais e com as pernas penduradas de lado. Ainda por cima, o bebé tem as articulações ainda em formação, e esta posição de pernas não favorece um desenvolvimento correcto da articulação da anca. O porta-bebés deve permitir que o bebé seja transportado com a anca na posição correcta e fisiológica, seja deitado em posição fetal, seja sentado com os joelhos ao nível ou acima da bacia - ou seja, realmente sentado e não pendurado. 



Alguns exemplos de porta-bebés que favorecem uma posição fisiológica:
- Pouch sling - deitado ou sentado, o bebé está confortável e com a anca na posição correcta. Pode ser usado desde o nascimento. Deve ser usado no tamanho correcto e a costura de finalização deve ser tripla e reforçada. Mais sobre o Pouch Sling aqui e aqui
- Sling de argolas - a grande diferença relativamente ao pouch é que tem mais pano e permite controlar o tamanho com as argolas. É importante saber se as argolas usadas na confecção são adequadas e aprovadas para a utilização no transporte de bebés. É necessário também certificar-se de que as costuras utilizadas na fixação das argolas são suficientemente resistentes e reforçadas. A sua colocação e regulação é um pouco mais complicada do que a do Pouch.
- Pano, wrap, etc - são atados à volta do corpo da mãe e do bebé. A sua colocação é mais complicada, pelo que é necessário certificar-se de que sabe usar o pano correctamente. Em termos de posições é o mais versátil, mas é também o mais difícil de colocar.
- Mei tai - é colocado como uma mochila e as alças são atadas à volta do corpo da mãe. Pode ser usado apenas na posição sentado, na vertical. É ideal para crianças mais crescidas que já não entram bem no sling.
- Mochila ergonómica - está entre o Mei Tai e o marsúpio. Por um lado é mais estruturada e acolchoada que o Mei Tai, assemelhando-se por isso ao marsúpio. Mas a saída das pernas do bebé é para os lados e não para baixo, permitindo que ande sentado e não pendurado como no marsúpio tradicional. 

Pessoalmente acho que os três primeiros da lista são os mais adequados para a utilização com recém-nascidos, visto que permitem a utilização na posição de berço ou deitado (como quando o bebé está deitado ao colo a mamar, por exemplo). Faz-me confusão ver bebés em posição vertical nos porta-bebés porque existe um risco maior de a coluna não estar bem apoiada, por má utilização. Por isso, se o Pouch sling e o Sling de argolas podem ser usados tranquilamente desde o primeiro dia até aos 3/4 anos, o Mei Tai e a Mochila ergonómica são utilizáveis desde que a criança começa a segurar a cabeça e demonstra alguma tonicidade muscular até aos 4/5 anos. O pano é transversal, pode ser usado desde o nascimento até serem maiorzinhos, mas é mais complexo. No entanto, a partir de certa idade as crianças querem andar mais é no chão, pelo seu pé, pelo que a utilização de um porta-bebés deixa de fazer sentido na maioria das ocasiões.

A ideia que prevalece na comunidade de babywearing (que se pode traduzir para português como "vestir" ou "usar o bebé"), especialmente nos EUA onde existe mais informação sobre esta prática, é de que quanto mais simples for o porta-bebés, melhor... o importante é que o porta-bebés favoreça o contacto e a interacção entre mãe (ou cuidador) e bebé, de forma segura, prática e fisiológica, para conforto de ambos. 

Relativamente ao material usado na confecção do porta-bebés, especialmente se for para transportar recém-nascidos, este deve ser o mais natural possível. A utilização de tecidos 100% naturais (algodão ou linho) favorece não só a transpirabilidade e respirabilidade do porta-bebés mas também minimiza os riscos de alergias por contacto com fibras sintéticas. Quando é muito pequenino, o bebé fica totalmente dentro do sling, daí que a transpirabilidade dos tecidos (interior e exterior) seja um factor importante. Mesmo mais tarde, quando anda sentado, é importante que os tecidos sejam frescos, pelo que as fibras sintéticas (mesmo misturadas com algodão) devem ser evitadas.



Numa das vendas em que participei apareceu uma senhora a ver os meus slings com algum interesse. Pensei que tivesse interesse para um neto, mas a certa altura ela sorriu-me e disse-me: "Sabe, eu sou pediatra e tenho vontade de bater nas minhas mães quando me aparecem no consultório com os bebés pendurados nos marsúpios. Digo-lhes sempre que o sling é o ideal para transportar os bebés, e tenho pena que não tenha maior adesão em Portugal. Continue com o seu trabalho!" Estas palavras de encorajamento ficaram-me gravadas na memória, achei uma graça ela ter-me dito isto. 

De facto, quando o meu filho mais velho nasceu emprestaram-me um marsúpio, que eu usei 2 vezes e desisti... e morava num 3º andar sem elevador, mas ainda assim preferia subir e descer com o ovinho pendurado no braço do que com o bebé no marsúpio!






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